Quando se fala em churrasco, a primeira imagem que vem à mente quase sempre envolve carne bovina. No Pantanal, porém, existe uma tradição paralela que raramente ganha o mesmo destaque: o preparo de peixes de água doce na brasa, uma técnica que exige cuidados bem diferentes dos aplicados a um corte tradicional.
Foi acompanhando essa tradição de perto que Wilson Bachega Junior aprendeu a valorizar o que separa um peixe bem grelhado de um peixe ressecado ou mal temperado. Vale a pena entender o passo a passo por trás desse preparo antes de tentar reproduzi-lo em casa.
A escolha do peixe certo antes de acender o fogo
Nem toda espécie se comporta bem na brasa. Peixes com carne mais firme, como o pintado e o pacu, suportam melhor o calor direto sem se desfazer, enquanto espécies de carne mais delicada exigem grelhas específicas ou papel-alumínio para preservar a textura.
O tamanho das postas também interfere no resultado final. Pedaços muito finos ressecam antes de cozinhar por completo, e pedaços grossos demais correm o risco de queimar por fora sem cozinhar por dentro. Wilson Bachega Junior recomenda postas de espessura média, suficientes para segurar a umidade sem comprometer o tempo de preparo.
Temperar sem disfarçar o sabor natural
Diferente da carne bovina, o peixe de água doce carrega um sabor mais sutil, que se perde facilmente sob temperos pesados. Sal grosso, limão e ervas frescas costumam bastar para realçar o gosto sem sobrepor a textura natural da carne.
Marinar por tempo excessivo é um erro recorrente entre quem está começando. Como a carne do peixe é mais porosa que a bovina, ela absorve rápido demais, e um tempo de espera longo pode deixar o sabor ácido ou salgado em excesso. Alguns minutos antes de ir à brasa já garantem o efeito desejado.
O controle do calor durante o preparo
Diferentemente do boi, que tolera brasas mais intensas, o peixe pede um calor médio e constante. Fogo alto demais queima a parte externa rapidamente e deixa o interior cru, resultado que frustra qualquer expectativa de churrasco bem-feito.

Wilson Bachega Junior costuma reforçar a importância de posicionar a grelha um pouco mais afastada da brasa quando o item é peixe, justamente para permitir que o calor penetre de forma uniforme. Virar a peça poucas vezes também ajuda a manter a carne inteira, sem que ela se desmanche sobre a grelha.
O ponto ideal e os sinais de que está pronto
Identificar o ponto certo é mais simples do que parece, ainda que exija atenção. A carne perde a transparência e ganha uma textura opaca e firme quando está pronta, e se solta com facilidade da espinha ao ser pressionada levemente com um garfo.
Retirar o peixe da brasa no momento certo evita o erro mais comum do preparo: deixá-lo tempo demais sob a justificativa de “garantir que cozinhou”. Wilson Bachega Junior defende que, no caso do peixe, o ponto de segurança chega bem antes do que muitos imaginam, e passar esse limite compromete tanto o sabor quanto a suculência.
Uma tradição que merece mais espaço na mesa
O churrasco de peixe de água doce carrega uma identidade própria dentro da culinária pantaneira, distante do protagonismo que a carne bovina normalmente ocupa em reuniões familiares. Dominar esse preparo é, de certa forma, resgatar um hábito regional que corre o risco de ficar restrito a quem cresceu perto dos rios.
Para Wilson Bachega Junior, entender essas particularidades é o que transforma um simples churrasco em uma experiência mais completa, capaz de aproximar quem visita a região de um sabor genuinamente local.